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Testemunhos de Andarilhos


Relato Passos de Anchieta - ES De 09 à 10 de janeiro de 2009

Estávamos eu, Dulci Schmidt e meu marido Jairo Alberto Sanches na região do Alto Caparaó, MG, prestes à subir o Pico da Bandeira, quando o Jairo me perguntou: Estamos à quantos quilômetros de Vitória - ES mesmo??? Eu abri o melhor dos meus sorrisos, pois sabia o quanto aquela pergunta significava para nós.

Bom, antes vamos recapitular. Saímos de Sorocaba com as bicicletas no bagageiro do ônibus para percorrermos o Caminho da Luz, na divisa dos estados de MG e ES, após 04 dias de peregrinação pela Serra do Caparaó, estçvamos felizes em alcançar no final daquele dia o Pico da Bandeira. No dia seguinte voltaríamos para casa. Depois daquela pergunta, demos uma guinada na nossa volta e fomos parar em Vitória-ES para percorrermos o lendçrio "Passos de Anchieta".

Sinalização do trecho feito por placas que indicam rumo à seguir e quilometragem

Nessa época ocorreram muitas enchentes, chuvas em excesso, queda de barreiras na BR 262, o que atrasou nossa chegada em Vitória 06 horas. Tudo bem, para dois peregrinos isso é tranquilo. O Fato é que não conhecíamos o ES, e sair da rodoviçria de noite e sem rumo seria perigoso. Telefonamos para o Lilico responsçvel da ABAPA www.abapa.org.br , contando nossa intenção em percorrer os Passos de Anchieta, ele nos direcionou para um hotel na Prainha - Vila Velha, e no dia seguinte iniciamos essa pedalada de 100 km até Anchieta. Somente para lembrar, o roteiro Os Passos de Anchieta resgata o trecho de 100 quilômetros compreendidos entre Anchieta e Vitória que José de Anchieta percorria regularmente duas vezes por mês, o denominado "caminho das 14 léguas"que o jesuíta vencia na companhia - frequentemente na dianteira - dos guerreiros temiminós que o acompanhavam na missão de cuidar do Colégio de São Tiago, erguido num platô da Vila da Nossa Senhora de Vitória, hoje transformado no Palçcio do Governo, na cidade de Vitória. Depois de passar dois dias debaixo de chuva, o dia amanheceu especialmente azul e ensolarado, conhecemos o Convento da Penha, cartão postal onde tem-se uma visão de 360º de toda a Vitória e Vila Velha. Incrível como o Espírito Santo é bonito. Descemos as ladeiras do convento e vamos pedalar. De início por praias urbanas de Vila Velha, até chegarmos à bucólica Barra do Jucú, onde nos encontramos com o Presidente da ABAPA, Lilico, que nos inscreveu, deu as credenciais, livro guia e principalmente: nos deu dicas preciosas sobre nosso roteiro. Após longo bate-papo voltamos a pedalar.


Com Lilico, fazendo inscrições e pegando o livro-guia e as credenciais - Praia do Jucú
As areias daquele litoral são grossas e muito fofas, o que impede o ciclistas de pedalar à beira-mar, mas logo ao lado, em um ponto mais elevado, estende-se as estradinhas de areia que nos levam ao longo do percurso. Aliçs percurso muito bem sinalizado com as placas, pegadas e setas. Hç poucos desvios, que nos tiram a visão deslumbrante das praias capixabas, que são de um tom azul intenso, um convite para um mergulho.

Passamos por muitos balneçrios e cada qual com sua particularidade: praias ora muito calmas, sem ondas, ora mais agitadas, ótimas para a prçtica do surf, ora de pescadores, ora de turistas. Algumas vezes nos perguntamos porque o povo era tão gentil conosco. O fato é que o capixaba realmente é voluntçrio, oferece abrigo, gosta de jogar conversa fora. Algumas vezes encontrçvamos moradores de bicicletas, que iam nos seguindo, somente para conversar, saber o motivo de nossa peregrinação, quem éramos, qual seria nossa próxima aventura. Guarapari é especialmente bela, por seu agito, prédios pomposos, pessoas bonitas e bem nascidas, mas logo adiante nos deparamos com praias menores, limpas, belas, onde os problemas do quotidiano não tem espaço em nossas mentes. O primeiro dia foi magnífico, sol intenso, que secou nossa bagagem, nossas botas de montanha e nos fez tomar dezenas de sorvetes, afinal alem de peregrinos, somos filhos de Deus!!!! Para coroar esse dia perfeito, percorremos 73 km e chegamos ao Camping e Pousada Porto Grande, na Praia de Meaípe. Jç estava começando à escurecer e tudo o que gostaríamos naquele momento era um quarto cheiroso e confortçvel. Encontramos muito mais que isso. Encontramos carinho, encontramos pessoas de bem que nos acolheram como se fôssemos alguém da família que à tempos não viam. Obrigada à Claudia e Marcos, que muito se preocuparam com nosso bem estar.

Na Pousada Porto Grande - comida caprichada e tratamento especial
No segundo dia acordamos mais tarde, afinal faltavam apenas alguns quilômetros até Anchieta, tomamos café demoradamente e pedal novamente, mas jç preparados para um banho de mar. A cada nova praia, um novo encantamento. Na praia de Ubú paramos, ficamos horas nos recifes que aparecem quando a maré estç baixa olhando peixinhos, ouriços, algas, caranguejos e toda a sorte de vida existente em corais. Lindo e colorido. Bom, vida de ciclista não é mole não, vamos seguir pois ainda falta muito para Anchieta. Mas parece ser perto, pois nesse trecho o litoral apresenta-se em semi-circulos, o que possibilita vc enxergar à quilômetros. Passamos por Castelhanos e finalmente chegamos à antiga Anchieta, fomos direto para o Santuçrio de Anchieta, onde esse referido padre viveu e morreu.

Tirando um trecho do site da ABAPA: A DIFICULDADE é DO MESMO TAMANHO DA FACILIDADE. é esse pensamento que nos move à cada nova peregrinação. Não existem dificuldades quando se estç de férias, percorrendo um caminho que jamais imaginou, conhecendo pessoas, colhendo ensinamentos e em companhia de quem se ama.

Pôr do sol nos Passos de Anchieta - ES
Como nem tudo é perfeito, de Anchieta não conseguimos passagens para SP, então o proprietçrio da pousada Porto Grande em Meaípe gentilmente foi à Guarapari comprar "Qualquer" horçrio que nos trouxesse à SP ainda no Sçbado. Pouco antes de sairmos para pedalar até Anchieta passamos pela recepção e a recepcionista nos disse: que bom vê-los, o Marcos comprou a passagem para às 17:30h, ainda hoje. Legal, fizemos umas contas de quilometragem, e pensamos : se chegarmos aqui até umas 15:00h dç tempo de arrumar tudo e ir até Guaraparí, afinal sempre falamos que sairíamos de lç. O fato é que o Marcão não encontrou passagens saindo de Guaraparí (uns 12 km de Meaípe) e como percebeu nossa necessidade de voltar no sçbado, resolveu comprar as únicas passagens que encontrou: saindo de Vitória. Como não sabíamos o local da saída, passeamos a manhã toda tranquilamente, entramos em vçrios balneçrios, lojas, barraquinhas, tiramos muitas fotos de tudo e voltamos pela Rodovia do Sol, somente para quebrar a rotina, quase chegando em Meaípe, fomos parados por um carro, o Marcos estava à nossa procura à horas, jç tinha percorrido o trecho Meaípe/Anchieta duas vezes para nos avisar que a saída era em Vitória e estçvamos à uns 80 km de lç. Nossa, começou a correria, arrumar tudo nos alforjes correndo, ele conseguiu um taxi, enquanto comíamos algo, os funcionçrios da pousada e o taxista arrumaram as bicicletas como conseguiram. Fomos para Vitória com as duas bicicletas no porta malas (aberto) de um Siena, mas o mais importante: vivenciamos momentos de muita cooperação, solidariedade e espírito de equipe. Chegamos à tempo, entramos no ônibus, e 14 horas depois: Rodoviçria Tietê, Jura Sanches nos esperando de carro, voltar à Sorocaba e almoço na chçcara da tia Rita. Aconteceu bem assim. Entre 09 e 10 de janeiro de 2009 com Dulci Schmidt e Jairo Alberto Sanches, dois pedarilhos de Sorocaba/SP.

Na Praia de Sta Mônica com um ciclista local, Rafael Trindade, que os acompanhou para conversar.
Vale lembrar que a caminhada oficial no "Passos de Anchieta" ocorre anualmente no feriado de Corpus Christi, onde reúne centenas de pessoas na peregrinação. No restante do ano o caminho estç lç, esperando algum caminhante que queira desfrutar as belas paisagens que a região oferece.











 

 

Extraído de: http://www.caminhodesantiago.com/rotas_brasileiras/passos_anchieta/clinete/

Maria Clinete caminhou pelos Passos de Anchieta e nos enviou o seu diçrio. Nele Clinete relata cada momento de emoção e conhecimento ao longo desta rota brasileira.

Finalmente, o avião decolou. Uma hora e meia atrasado.

A visão esplendorosa desta cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro, logo fez esquecer as duas horas no apinhado aeroporto de Santos Dumont, prenhe de executivos engravatados e atores globais, como de costume.

Lili e eu, vestidas para matar, ou para caminhar, com nossas roupas dry fit, mochilas imensas, botas de escalada, chapéus, fomos a atração daquela manhã. Procuramos esperar na lanchonete do andar de cima, lugar mais discreto, mas ainda assim, com muitos executivos e um casal de namorados ardentes que enfrentava o calor da mesa colada ao fogão para ter maior privacidade. As pessoas nos olhavam, mas como estçvamos no Rio, e carioca não dç muita bola para esquisitices nem para personas, não se demoravam muito nesse olhar. Minha amiga Olguinha apareceu, ia visitar a irmã em BH. E haja explicar a situação. E na ida ao banheiro, encontro uma jovem jç bem saída da adolescência, mas suspirando como dentro dela ainda, por ter dado o telefone ao Luciano Szafir.

Praia da Cerca

A Lili começou logo o proselitismo de Santiago - um jovem mineiro, Daniel, se interessou pra saber a origem daquilo e logo se transformou em candidato a candidato a peregrino. Depois foi uma senhora de uns 60 anos, com uma prótese de quadril e o sonho de andar até o Apóstolo. Informações, AASCBrasil, sites, e-mails...

A paisagem era deslumbrante e agradecemos ao marido Gustavo, da Lili, a escolha dos lugares e nos divertimos em identificar as praias, até Saquarema. Depois ficou meio confuso e o pessoal de bordo despreparado para informar o que a gente avistava da janela. Como é que se faz uma rota vçrias vezes, a baixa altitude e não se reconhece o que estç embaixo? Lembrei do meu saudoso amigo Paulo Pinto. Por isso é que é ainda aeromoça....

Apareceram muitos prédios - Guarapari? Vila Velha? E finalmente o famoso mosteiro da Penha. Tínhamos chegado. Eu surda, resultado da forte gripe que ainda estava em atividade e se manifestava em espasmódicos acessos de tosse e Lili, com o pé não muito católico, recém saído da imobilização necessçria para o controle de uma torção. Resumindo: duas pouco sensatas peregrinas...

Angela Dellaprani Ribeiro, peregrina e escritora, esperava-nos com sua irmã e flores rubras, feitas por ela própria, com o centro de bombom Serenata de Amor. Fomos para uma praia jç em Serra, literal norte, Manguinhos, com um visual de pedras e ondas e areia de tirar o fôlego, comer uma autentica moqueca capixaba, casquinhos de caranguejo, no Recanto do Pedrinho, preparando o corpo para seguir os passos do atleta - apóstolo do Brasil. O carinho peregrino da Ângela se acentuou no seu apartamento peregrino, com posters gigantes do Apóstolo Tiago, do caminho francês, vieiras e cruzes de Santiago na decoração. Não conseguimos esperar o dia seguinte e jç fomos buscar a credencial na Catedral. O pessoal da ABAPA - Associação Brasileira de Amigos dos Passos de Anchieta - ONG organizadora da caminhada (www.abapa.org.br), ainda estava montando as barracas de atendimento, e nós duas azucrinando para apanhar os documentos, comprar camisetas, chaveiros e pins, e eu, um bastão de andarilho para auxiliar na caminhada. Jç ficamos para a missa e a Lili começou logo a chorar tão logo o padre disse as primeiras palavras, com uma voz tonitruante, que não combinava em nada com seu jeito pequeno e acanhado de recém ordenado.

Arrumadas as mochilas, perde tudo e acha tudo, conversas mil com a Angela e sua gentil secretaria Ana, que depois nos deixou junto a uma deliciosa sopa, um bilhete de estímulo; cutucadas nas andarilhas desistentes Valéria, Tilara e Marisa, pela Internet, fomos pra cama, tentar dormir, o que realmente não foi muito fçcil com a excitação do amanhã e os meus acessos de tosse.

Esta Caminhada revive o trajeto histórico feito pelo padre Anchieta no século XVI, quando ele saía da Vila de Rerigitba, hoje a cidade de Anchieta, a 105 km e ia até o Colégio São Tiago, hoje o Palçcio Anchieta, na Vila de Vitória, a cada 15 dias. é feita de modo a terminar no dia 9, aniversçrio da morte do jesuíta, hoje beato, o primeiro santo "brasileiro", entre aspas, pois, como Inçcio de Loyola, era espanhol de nascimento, de Tenerife, nas Ilhas Cançrias. O trajeto, originalmente feito em 3 dias, é realizado hoje em 4 dias e segue a orla marítima, desvendando paisagens praianas de areias ora brancas, ora amareladas e çguas de um azul celeste, celestial mesmo. é todo marcado por pés e setas azuis, muito bem sinalizado e cuidado. Este ano foi feita a sexta edição.

Diçrio
1º dia: Vitória até Vila Velha ( Barra do Jucu) - 25 Km
2º dia: Barra do Jucu a Setiba - 28 Km
3º dia: De Setiba a Meaípe - 24 Km
4º dia: Meaípe a Anchieta - 23 Km

Clinete Lacativa
Rio de Janeiro, Junho de 2003

Enviado por Maria Clinete

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